UNTITLED – NO ENTULHO

 

 

Uma espécie de vertigem causada pela profundidade imediata da vida[1]

 

Na residência No Entulho procurei adequar a superfícies metálicas uma certa tradição oriental de construção de textura em tecidos. Amachucar, vincar – gravar essa posição no material através da pintura – tornar a endireitar. A memória da superfície e o limite da resistência do material é a estrutura da construção da imagem. Combina-se opacidade e profundidade, quietude e movimento, em corpos cujas referências, dificilmente identificáveis, ora se fecham ora se expandem.

 

Ecrã – cortina – janela – página – véu – pedra. Planos com dois lados (frente e verso) comunicantes – um espaço que se expande, uma crosta que coagula.

 

Há uma ideia de vertigem – a vertigem em experimentar a realidade como figurativa e abstracta simultaneamente. Também há uma ideia de transporte, ligada à ideia de passagem.

 

As imagens são tratadas como superfícies: superfícies como coisas em si mesmas e superfícies à escala natural do que representam – espaço, parede, abertura, fundo, sem fundo. Há representações de superfície contraditórias coincidentes num mesmo plano.

 

Não são representações de algo exterior. São uma representação da própria superfície numa morfologia anterior.

 

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[1]  João Miguel Fernandes Jorge, O Bosque, 2015

Luísa Jacinto

 

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Numa das primeiras semanas da sua residência na AiR 351 Luísa Jacinto fez o percurso de Lisboa até Cascais de comboio. À chegada comentou o seu fascínio pelas janelas e pelas portas entre as carruagens. Referia-se não só ao desenho dessas estruturas metálicas, semelhantes a molduras, mas sobretudo à sua função de charneira: à potencialidade de atravessar esses espaços e de abrir passagens. Esse relato é revelador do pensamento que rege a sua obra e é particularmente elucidativo acerca deste novo corpo de trabalho desenvolvido na Artworks.

Luísa Jacinto foi a primeira residente da AiR 351 a ser recebida na Artworks no contexto da parceria existente entre as duas organizações. Trabalhou em paralelo, ao longo de vários meses, oscilando entre dois ambientes dotados de escalas e recursos distintos: em Cascais, num estúdio inserido numa residência internacional, caracterizado por um ambiente familiar e inter pares; na Póvoa do Varzim, numa residência em ambiente rural e fabril, com o apoio de profissionais industriais. Na primeira deu continuidade ao seu trabalho de pintura sobre tela e madeira e às colagens sobre papel. Na segunda empreendeu um processo complexo de preparação de chapas metálicas de grandes dimensões com vários desafios: um material que não conhecia bem; um ritmo de trabalho dependente da conciliação de agendas de vários intervenientes; o recurso a técnicas e a equipamentos nunca antes por si utilizados. Calandra e quinagens passaram a fazer parte do seu léxico quotidiano e do seu processo artístico. A pintura propriamente dita, neste caso, chegou no culminar destas operações.

À primeira vista somos levados a crer que estas obras se tratam também de pinturas sobre tela. Esta ilusão (entre outras) é propositada e para tal contribuem as quinagens dos seus limites, que lhes dão outro corpo, e um modo idêntico de conferir profundidade às superfícies planas. Apenas a atenção e a proximidade denunciam uma outra temperatura, uma outra textura que acolhe a pintura. O mesmo quanto à revelação das evidências do histórico do suporte: vincos, dobras, por vezes rasgos – marcas estruturais, provocadas, surgem em relação com o pictórico.

Retomo a ideia inicial de transporte e de movimento pendular. Do que se leva, de um lado para o outro, da suspensão, da velocidade, da adrenalina da viagem, rumo ao que (ainda) não conhecemos.

 

Luisa Especial